sábado, 22 de dezembro de 2012

A tecnologia e a poesia

   É inegável como a tecnologia tem evoluído nas últimas décadas. Com o advento da internet e com a evolução dos meios de comunicação, o consumidor teve mais acesso ainda a essa tecnologia. (Praticamente) todos hoje tem um notebook, um tablet ou um smartphone (ou os três!). Invariavalmente todos os setores da economia e da vida - dos operadores das bolsas de valores à religião - precisaram se ajustar e incorporar a si a revolução tecnocientífica.
   Com a literatura não é diferente. Praticamente todos os escritores hoje usam tablets ou computadores para trabalhar, ao passo que muitos leitores abandonaram o papel e leem em suas telas. Mas e a poesia? 
Posso dizer que a poesia ainda não está incorporada ao processo. A composição do poema é diferenciada. No papel as idéias fluem mais facilmente. Agem como uma psicografia. Na digitação, não. É como se uma tese, um trabalho, estivesse sendo redigido. "Não existe mais poesia, e sim artes poéticas" - com diria Manuel Bandeira - se todos os poetas resolvessem aposentar a celulose. 



  A poesia do meu tempo

Há quem escreva poemas agora
em computadores e em telas de retina.
Nada contra. Nada principalmente a favor.
Os aplicativos exigem a perfeição e a forma.
O papel, apenas a licença poética.

Licença consentida.
O papel pede a caneta ou o lápis,
ou a pena, para o nostálgico.
A máquina te impõe pontuação e acentuação.
O papel te oferece a imperfeição.

Imaginem que chata a manchete:
"Encontrado backup de Camões".
Mas sempre é fantástico
o rascunho do letrista não sei onde achado.
Mofado, sujo e amarelado.

É comparar o gol de canela com o de bicicleta,
a comida da avó com a de conserva,
Garota de Ipanema num riff de guitarra,
com o dedilhado do Poetinha.
Assim também as poesias de pixels e de celulose:
são a mesma coisa;
a coisa é que não é a mesma.

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